Comunidade Imaginada

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HIERARQUIA E MEMÓRIA – O HÁBITO FAZ O MONGE

A hierarquia é uma forma de organização com instâncias superiores e inferiores, numa sucessão regular como salienta Louis Dumont. Sendo o elemento da gradação dos elementos do conjunto, por referencia ao próprio conjunto.

Segundo Edward Evans-Pritchard e Meyer Fortes, primeiro, detectava-se a existência de sociedades dominadas pelo o parentesco. Onde a ausência de politico não queria dizer que não existia a distinção dos poderes de autoridade. Há medida que as sociedades passam a ser constituídas por um maior número de indivíduos o politico passa a dominar o parentesco. No entanto o politico e o parentesco continuam associados. Levando a uma organização baseada numa liderança. Depois dá-se a dominância do politico sobre o parentesco dado ao aparecimento de aparelhos administrativos e judicias. 

Poderemos dizer que para tudo o que fazemos, estamos por necessidade a colocar uma série de tarefas segundo o seu grau de importância. O grau de importância de X sucessão de eventos/tarefas é determinado por um ou vários motivos que são imperativos. Os motivos podem ser de diversa ordem, impostos ou não por uma autoridade. Por exemplo: Temos de varrer e lavar uma sala. Escolhemos varrer primeiro e lavar depois. Podemos escolher lavar primeiro e depois varrer, mas em circunstâncias normais temos consciência que esse facto não teria o mesmo grau de eficiência. Porque o sistema de memória conserva essa informação. Temos a liberdade de escolher o modo como organizamos eventos/tarefas. Mas apesar desse facto e quando não podemos fazer algo em simultâneo. Temos necessariamente de criar um modo de organização, que por sua vez funciona por ordem de importância. Essa ordem de importância é motivada por elementos exteriores ao individuo e por elementos necessários ao seu bem-estar e/ou sobrevivência. E o modo como o indivíduo tem acesso ao conjunto de factores que vão formar a motivação que é dada através da capacidade de memória, no entanto não é o cérebro que fabrica as memorias, são os indivíduos que usam os seus cérebros para o fazer. Até os animais com sistemas nervosos mais simples detêm esta habilidade. Os primatas dado a condicionamentos biológicos tais como o tempo da gestação, e um longo período pós-natal, desenvolveram a socialização como uma estratégia que traz mais valias para o grupo.

Os recursos são escassos, existe uma necessidade pelo acesso e distribuição dos mesmos. Então quanto mais escassos os recursos mais disputa há. O que leva a elaboração de estratégias, para tal é necessário existir cooperação, quando se dá cooperação ocorre igualmente o altruísmo. Crendo-se que esse ocorre mais entre indivíduos aparentados, e devido ao facto das migrações do hemisfério sul para o norte, dado às condições adversas, deu-se ainda mais a necessidade de cooperação entre indivíduos.

Para que se dê o altruísmo tem de haver uma motivação. A empatia deriva da exposição a uma emoção/motivo. E essas são determinadas por características neuropsicológicas que desencadeiam reacções que se manifestam em formas de comportamento.

Então a evolução apresenta duas questões/estratégias para a criação de comportamentos complexos. Uma, o organismo está pré-programando a nível genético para que as necessidades de sobrevivência sejam satisfeitas, através de funções essenciais, comportamentos inatos demonstrados pelos animais. No entanto a nível humano, estamos demasiados dependentes da aprendizagem e ela faz parte do nosso modo de sobrevivência. A aprendizagem dá-nos a capacidade de nos moldarmos e moldar o ambiente à nossa volta. Pois temos acesso ao seu modo de funcionamento. Com relação à aprendizagem é constituída através da capacidade de registar e armazenar informação. Tal como a capacidade de reutilizar a informação recebida em altura e tempo devido/útil.

Segundo Herman Ebbinghaus, a memória é a capacidade de absorver, reter e reutilizar, associar conhecimento. Usamos o termo único memória, para designar um sistema unitário, constituído por vários outros sistemas. Existem vários sistemas, cada um com as suas próprias características e capacidade de armazenamento. Podemos classifica-los por qualitativos e temporais. O mecanismo usado para o armazenamento de memórias em seres vivos, ainda não foi revelado. Estudos referem o LTP (potencial de longa duração) como o mecanismo que dá origem a formação de memórias. O LTP refere-se a um processo onde dois neurónios são activados em simultâneo, a sua conexão será mais forte com o tempo, isto significando que a actividade num desses neurónios produzirá actividade no outro.

Por sua vez os sistemas neuro-hormonais que agem como filtro das nossas memórias, tornando-as mais fortes ou mais fracas. Os acontecimentos têm respostas psicofisiologias em nós. E são determinados através de processos electro-físico-químicos. No entanto as memórias não são armazenadas integralmente, e mesmo fixadas e consolidadas podem não permanecer permanentes. Dai esquecermo-nos, somos muito mais aptos na capacidade de generalização e na abstracção de conhecimento do que na retenção de um registo literal. O acto de esquecer é fisiológico e é algo que tem uma sequência contínua, que leva ao enfraquecimento da memória do que foi aprendido, dai a necessidade de estimular a memória. Esquecer é algo essencial ao bom funcionamento da memória, pois é desnecessário recordar tudo ao mínimo pormenor, dado a situação de que existem determinadas informações que são desnecessárias ao nosso dia-a-dia. Não levando a um desempenho eficiente perante a tomada de decisões, dado ao facto de que provavelmente iríamos necessitar de um tempo de resposta face a x evento demasiado longo.

Julga-se que a consciência tal como a memória, não tem uma localização específica, mas sim está distribuída pelo o cérebro. Sendo uma unidade temporal e um múltiplo espacial. Alguns estudos apontam para a visão global da consciência na teoria das assembleias neuronais. Segundo esse modelo o pensamento consciente é criado quando vários neurónios de diversas zonas se unem em funcionamento, e actuam harmoniosamente em conjunto criando uma assembleia dando assim inicio à formação de um estado consciente. Com relação a característica quantitativa acerca das assembleias. Quanto maior for o número de neurónios recrutados, maior será o tamanho da assembleia e por sua vez a consciência sobre determinado facto, será maior em intensidade e tempo de duração e vice-versa. Para alem dessa situação dá-se igualmente um processo uni-temporal, em que se dá a constituição de uma assembleia e não de duas, criando apenas um único acto consciente.

A semelhança entre a aparente estrutura de funcionamento da nossa memória, e o método que usamos para nos organizarmos face ao ambiente à nossa volta e dentro de grupos, assemelhasse do seguinte modo.

O mundo à nossa volta imprime uma imagem que é filtrada pelo o nosso sistema sensorial, dá-se um foco de atenção, e essa informação passa para um nível, “acima”, neste caso de memória de curto-prazo para longo-prazo. No entanto o período de tempo pelo o qual esse registo fica fixado nesse nível de atenção depende igualmente no factor emitido pela motivação/emoção.

Num sistema hierárquico temos vários degraus, o que diferencia esses degraus, são as cadeias de poder que se formam na maior parte das vezes baseadas em conhecimento e a nível empático. Num sistema hierárquico há possibilidade de ascensão ao poder dependendo de vários factores igualmente associados a conhecimento e empatia/motivo. Há medida que se dá a ascensão, pelos os vários níveis da hierarquia temos a distribuição de conhecimento, o indivíduo que está no topo da hierarquia tem acesso facilitado ao conhecimento, logo mais apto a resolver problemas.

Tal como no sistema de memória, quanto melhor conseguirmos identificar a origem/solução para determinado facto, mais aptos estamos para analisar uma situação.

 

Poderemos funcionar em sistemas hierárquicos por defeito do nosso sistema de memória, ou porque a evolução assim moldou. Porque há medida que facto X se vai repetindo, um grupo de neurónios são activados e criam um sistema de “alerta” baseado em respostas físico-emocionais, que desencadeiam um comportamento baseado num registo de eventos similares. Depois temos a tomada de consciência desse facto com o mundo que o rodeia, e o modo de o controlar.

 

É numa perspectiva “global” que se dá a necessidade de organização, onde cada instância de funcionamento faz parte integrante da própria estrutura de uma forma semi-dependente. E onde cada instância de funcionamento é por si só uma estrutura em si mesma, no entanto dependente da estrutura que cada instancia no conjunto forma.

 

Segundo a história evolutiva actual podemos apontar que tanto a memoria e a capacidade de organização se desenvolveram possivelmente em simultâneo, no entanto resta determinar o que impulsionou uma coisa e outra. Sabemos que os animais possuem um sistema nervoso, que em algumas espécies é mais complexo que em outras. Por exemplo do Homem para o Chimpanzé temos traços semelhantes os Chimpanzés usam igualmente ferramentas para capturar alimentos. Podemos dizer que existe uma propensão para o desenvolvimento do sistema nervoso, quando este está exposto a determinados ambientes. No entanto também podemos dizer que tem de haver uma ignição para o desenvolvimento do mesmo.

Tal como com relação a capacidade de consciência. Se esta for determinada como um género de cadeia evolutiva da parte do sistema nervoso, e por desenvolvimento da memoria e capacidade de associação, dando-nos a capacidade ao longo de gerações de uma maior síntese do mundo que nos rodeia, e novas capacidades com relação ao modo como nos organizamos, visto termos acesso ao funcionamento do que nos rodeia, logo uma maior capacidade de analise.

Como se tivéssemos dentro de um labirinto. A única maneira de ultrapassar o labirinto rapidamente é nós elevarmos acima dele, no entanto na prática, o único modo de nos elevarmos acima do labirinto é a transmissão de conhecimento de geração em geração. Ao se transmitir um mapa do que já foi percorrido, aos recém chegados. Tal como métodos de organização essenciais que mudam de estrutura ao longo dos tempos, consoante as necessidades impostas tanto pelo o ambiente envolvente como pelo o próprio indivíduo. No entanto esses modos de organização começam sempre por uma ordem hierárquica na medida em que é definido um ponto de partida que tem um grau de importância com relação ao conjunto.

 

Bibliografia

Baddeley, Alan, (1997) Human memory: theory and practice, Hove (East Sussex): Psychology Press

Cartwrigth, J., (2000). Evolution and Human Behavior. Cambridg, The MIT Press

Dumont, Louis, (1996) Homo Hierarchicus, Le système des castes et ses implications, Éditions Gallimard.

 

SC

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