Comunidade Imaginada

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Improbabilidades: máscaras, livros e bibliotecas

mascaras19 de Outubro de 2007, Biblioteca Municipal Camões: a biblioteca abre as portas aos utentes às 10 e meia da manhã e os utentes, que (des)esperam pela abertura das ditas, entram. Um grupo de seis crianças em idade e roupa de infantário hesitam mas, obedientes às vozes de comando das educadoras, vão-se acomodando no espaço apertado em frente ao balcão, partilhado por 5 utentes, 2 funcionárias, 1 funcionário, 6 crianças e 2 educadoras.

Um momento fotográfico, estático, que se prolongou por uns incomodativos segundos. Todos esperavam o momento oportuno em que cada um começaria a cumprir as funções designadas para os respectivos papéis. Os funcionários esperavam começar a funcionar, os utentes a utilizar, as educadoras a educar e as crianças… as crianças não sei que expectativa teriam. Os olhos tinham-nos arregalados e resignados à sorte que viria.

E a sorte veio. Veio na forma de uma figura irrompendo de uma porta lateral, com uma horrenda máscara na cabeça, em corridinhas rápidas e guinchos agudos no pouco espaço que restava entre crianças, educadoras, funcionários e expectantes utentes. Supostamente, a mascarada destinava-se a receber o público infantil e pretendia mostrar quanto divertido e atractivo pode ser o espaço “duro e solene” de uma biblioteca pública.

Perante uma enorme cabeça, cinzenta, dois chifres pontiagudos no topo, enterrados entre uns pelos de lã preta, uma espécie de tromba e dois caninos draculianos, as crianças encolheram visivelmente, fundiram umas nas outras e todas nas educadoras, enquanto um funcionário tentava em vão encontrar um ângulo justo que registasse na câmara digital o momento de brincadeira, para memória futura. Da bibiloteca ou das crianças? Pela reacção das crianças, previ futuros jovens e adultos traumatizados, em risco de enfrentar uma ameaça escondida em cada livro, livraria ou biblioteca.

A senhora mascarada – o fato formal de saia e casaco denunciava uma personagem feminina por baixo da máscara – encaminhou as crianças aterrorizadas, que as educadoras tentavam animar e impedir o choro colectivo que se anunciava, para uma visita guiada às salas da biblioteca. Os funcionários respiraram de alívio e eu pude finalmente devolver os livros emprestados e já fora de prazo devido aos horários impossíveis que as bibliotecas municipais resolveram praticar.

Descendo a escadaria (escorregadia, em mau estado e perigosa) de acesso à rua, dei por mim a pensar que os horários, a mascarada desastrada e as próprias escadas, fazem parte de uma estratégia intencional de dissuasão de crianças, jovens, adultos, homens e mulheres, de frequentarem bibliotecas – em particular, as municipais – e de adquirirem e manterem hábitos de leitura. Só pode!

A propósito de máscaras:

Paulo Raposo, “Masks, Performance and Tradition: Local Identities and Global Contexts“.

A propósito de livros e leitura:

“Le verbe lire ne supporte pas l’impératif. Aversion qu’il partage avec quelques autres: le verbe «aimer», le verbe «rêver»”, Daniel Pennac, Comme un roman.

A propósito da relação improvável entre leitura e bibliotecas:

Os horários públicos das bibliotecas municipais (ou os horários municipais das bibliotecas públicas).

[CM]

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