Comunidade Imaginada

:: coisas da antropologia ::

O retrato d@s antropólog@s em Portugal, nos finais do século XX

Em 1999, a Associação Portuguesa de Antropologia lançou um Inquérito à Situação dos Antropólogos em Portugal, o primeiro em mais de 20 anos de institucionalização da disciplina e de criação dos primeiros cursos.

Oito anos depois, o boletim electrónico da APA, no número de Setembro de 2007, publica uma primeira análise dos dados deste Inquérito, num texto de José Cavaleiro Rodrigues, “Os antropólogos portugueses nos últimos anos do século XX“.

«Este texto oferece-nos um primeiro panorama da situação de profissionalização e de formação dos antropólogos em Portugal. O inquérito foi realizado em 1999, mas incluiu perguntas relativas a 1989. Assim, esse estudo caracteriza o perfil do antropólogo nessa década (1989-1999) como uma população jovem, inserida profissionalmente (com menor desemprego do que a maioria nacional na época), muito concentrada na área da grande Lisboa, maioritariamente feminina, e a transitar entre a área do ensino e o exercício de funções nos quadros técnicos superiores, em áreas tão diversificadas como a museologia, a intervenção social e comunitária e a formação profissional.» [Boletim da APA, Setembro de 2007, sublinhados meus]

Alguns aspectos resumidos (os sublinhados são todos meus):

Que idade tinham @s antropól@gos em 1999?

uma população extremamente jovem: quase 30% dos antropólogos tinha menos de 30 anos; 75% estavam abaixo dos 40 anos e apenas 7% ultrapassavam os 50 anos de idade”.

Onde estavam?

“(…) a desmedida concentração geográfica da classe, patente no facto de, em cada quatro antropólogos, três estarem instalados na área da Grande Lisboa e Península de Setúbal e em várias regiões não haver mais do que algumas presenças isoladas”.

Como se distribuiam por sexo?

“No que toca à repartição por sexos, voltava a não haver surpresas: as mulheres constituíam a larga maioria dos licenciados – 67%, um valor que estava mais de dez pontos acima da proporção total de mulheres com o ensino superior”.

Onde trabalhavam?

“A maioria dos antropólogos inquiridos eram professores dos vários graus de ensino e investigadores. Na época, o ensino básico e secundário (21%) dava emprego a tantos antropólogos como os sub-sistemas de ensino superior (20.7%). Em 1989, os antropólogos dependiam quase exclusivamente do ensino e da investigação e uma década depois este sector de actividade ainda representa metade do emprego“.

Segundo J. Cavaleiro Rodrigues, os dados deste inquérito são ainda hoje os únicos que existem e permitem uma visão de conjunto sobre quem são os antropólogos portugueses, os seus percursos académicos e profissionais e as áreas de trabalho em que têm investido.

“Sabemos que decorridos oito anos após esta observação, as mudanças continuaram e o cenário terá hoje novos matizes. Vimos os antropólogos serem praticamente expulsos do sistema de ensino básico e secundário, ao mesmo tempo que, impondo as suas competências, participaram do movimento de expansão do chamado terceiro sector e tentaram penetrar um pouco mais em áreas empresariais até aqui reservadas a outras especialidades e grupos profissionais. Sentimos estas e outras alterações, mas em boa verdade não podemos medir o significado rigoroso que elas têm para o conjunto das práticas profissionais dos antropólogos, nem como estão a mudar a Antropologia que se faz em Portugal. É tempo de voltarmos a dirigir os nossos instrumentos de pesquisa para nós próprios e actualizarmos o retrato da nossa disciplina e daquilo que com ela temos sido capazes de fazer.” [José Cavaleiro Rodrigues]

Ler o texto integral de José Cavaleiro Rodrigues, “Os antropólogos portugueses nos últimos anos do século XX”, na página do E-Boletim da APA.

[CM]

1 Comentário»

  fcruz wrote @

Tenho dias de me perguntar “e depois, que fazer com isto (com a antropologia)?” A minha fantasia ultrapassa sempre a questão profissional; na minha fantasia tornar o mundo mais primitivo é possível. Estamos a ir demasiado longe demasiado depressa. Na minha fantasia o mais profícuo terreno para a antropologia é o político e o melhor veículo a educação. Sobre a minha fantasia não vislumbro muito mais além mas intuio muitas coisas…
Ando para ler a tua proposta do Thomas Erickson e ainda não arranjei tempo, mas parece-me que o assunto é crucial e é para ser discutido e a discussão deve tornar-se central nas preocupações dos antropólogos. Os desconstrutivismos radicais do pós-modernismo tiveram a sua importância mas quase deixaram a antropologia paralisada. É preciso voltar a assumir riscos e tomar posição.
Ora aí está algo que poderíamos debater…


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