Comunidade Imaginada

:: coisas da antropologia ::

A greve na função pública: o que dizem e não dizem os números?

Um dos efeitos habituais pós-greve é a reacção céptica de senso comum, entre o “todos mentem!”e o “já se sabe…”, à disparidade dos resultados da adesão, revelados, através da imprensa, pelo governo e pelos sindicatos. Nesta última greve foram anunciadas percentagens, respectivamente, de cerca de 20 e 80 por cento.

A primeira ideia que ressalta é que ambos mentem e manipulam dados. Mas ficamos sem saber “quem mente mais”, “como e quanto mentem” e como pode a manipulação de dados gerar números tão afastados numa escala de zero a cem.

O que é certo é que ambas as manipulações darão resultados opostos ao que, presumo, as duas pretendem. De facto, desacreditam-se uma à outra e ambas têm, aos olhos dos comuns mortais, a mesma credibilidade: zero. Ou zero, vírgula, qualquer coisa. Por cento. Ou, consequência possível e igualmente perversa, cada um acreditará no número que lhe apetecer ou der mais jeito.

Quando a imprensa divulga estas “percentagens de adesão à greve” parece partir de dois pressupostos: o primeiro, que os resultados que os cidadãos necessitam (merecem?) são meros números, redondos e arredondados, e que isso bastará para caracterizar a importância e o impacte social da acção; o segundo pressuposto é que ambas as partes utilizariam os mesmos critérios e os mesmos métodos, equiparando assim, quantitativamente , percentagens obtidas de forma qualitativamente diferente. Às vezes, chama-se a isto comparar alhos com bugalhos.

Pelo que sei, o método utilizado pelo governo é a recolha até certa hora dos números que os vários organismos são obrigados a comunicar. Não é necessário grandes engenhos estatísticos para fazer uma regra de três simples e, assim, se a administração pública tem “x” trabalhadores e os que declararam explicitamente fazer greve são “y”, logo, a percentagem é “z”. Regra mais simplista é difícil encontrar.

Uma preversidade da expressão em percentagem é não identificar o número absoluto de grevistas que o governo considera estar expresso na percentagem (os dados numéricos são recolhidos e divulgados por ele). Ou seja, no caso actual, 21,89% equivale, em números absolutos, a 70.267 trabalhadores e a 2003 serviços encerrados devido à greve. Números que, não sendo astronómicos, também não são insignificantes. Mas, só se sabe isso e desconhece-se, por exemplo, a distribuição destes números e percentagens por regiões. A DGAEP distribui os trabalhadores em greve por Ministério, mas não diz quais os sectores, nem que serviços, se estão longe ou perto da população, se são serviços fundamentais… Tão pouco rigor e a falta de clareza na divulgação permitem qualquer interpretação, por mais abusiva e/ou absurda que seja.

Os sindicatos, tanto os ligados à CGTP como à UGT, avaliam a adesão em termos de serviços paralisados e do número de trabalhadores ausentes dos locais de trabalho, números que são comunicados pelos delegados sindicais. A regra também aparenta ser simples, mas também não é explicitada e, a bem da verdade, ainda suscita maiores dúvidas quanto à sua credibilidade (basta imaginar o delegado sindical agarrado ao seu telemóvel e a sentir aquela tentação, muito humana, de empolar a greve do seu domínio) Esta hipótese parece ser legítima, visto que, contrariamente aos dados que o governo recolhe e divulga, via DGAEP, os sindicatos, pelo que me foi dado perceber através de pesquisa nos seus sites, nem isso fazem. Limitam-se a declará-los em comunicados, em estilo propagandístico, sem oferecerem uma mínima fundamentação. No entanto, sabem – ou presumo que saibam – aquilo que as percentagens que divulgam nos jornais são incapazes de verbalizar, ou seja, as escolas encerradas, serviços públicos sem capacidade de resposta aos utentes, centros de saúde igualmente encerrados, a revolta, as emoções, etc.

Coisas que os números não dizem e resultados que só podem ser avaliados quando se contacta directamente com as pessoas, nos locais onde elas estão, e o mais longe possível do raio da influência das instâncias de poder, sejam elas governamentais ou sindicais.

Os poderes têm este poder, malabarista, de transformar rapidamente pessoas em números e estes em anónimas – e anódinas – percentagens.

[CM]

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